domingo, 3 de outubro de 2010

Era Viana

Por Adriano Ferreira
No Acre ocorre um fenômeno interessante, quase parecido com o rito religioso misturado com uma pitada de heroísmo populista. Assim, como existe o divisor de águas na história ocidental marcado pela era cristã, posso afirmar que nestas terras do extremo ocidente amazônico existe o marco da era Viana. E o interessante, que não sou o único a vê dessa maneira. Lembro que em 2002 no anfiteatro da Universidade Federal do Acre (UFAC) houve uma mesa redonda sobre a tão badalada “Revolução Acreana”, onde se fazia presente, Tião Viana que expressou sua visão romanesca sobre o quase épico conflito com os bolivianos; Marcos Vinicius, historiador oficial do governo; profº Gerson Albuquerque, na época do departamento de História; e o Toinho Alves que, particulamente considero o grande vidente do partido vermelho, pois sacralizou Jorge Viana como o mais novo revolucionário. Ainda lembro de suas palavras: “Assim, como se comemora hoje a Revolução promovida por Plácido de Castro há cem anos. Daqui para o próximo centenário, também se comemorará o que Jorge Viana fez ao Estado do Acre.”

Minha intenção aqui não é se ater sobre o fato comemorativo do centenário da dúbia “Revolução Acreana”. Mas, antes, observar o que culminou para essa beatificação petista no Acre. E vejo que o discurso da salvação começou com o projeto da “florestania”, esta sim, é a palavra sagrada.
Este neologismo que é a junção de floresta e cidadania (claro na concepção de quem concebeu esta ideia) virou febre em todo o Estado, contagiando jovens idealistas que achavam que era possível fazer diferente. No bojo politico era expressão de vários projetos, como desenvolvimento sustentável, inclusão social do homem rural, a participação dos povos tradicionais da floresta nas politicas públicas, a valorização da economia extrativista. Resumindo, a redenção de um povo subjugado pela exploração vivida há séculos, levados agora para o seio de um Estado acolhedor. E isto tudo seria intermediado pelos Vianas, verdadeiros titãs de uma nova era, quem sabe semideuses, ou talvez heróis. Logo me recordo de Batman e Robin em Gotham City, de Homem Aranha usando sua fantasia vermelha, mas descarto este, porque é solitário no combate aos saqueadores da cidade novaiorquina, Jorge e Tião são imcoparáveis, são heróis que usam também a indumentária vermelha e ainda tem o chavão: “Quem é contra nós, é contra o Acre.”
Acreditando que estava vivendo no paraíso dos trópicos, depois de passados 12 anos desta missão promissora, resolvi perguntar para o seringueiro, o ribeirinho, ao pequeno produtor rural, ao indígena, estes que são os redimidos não pelo sangue de Cristo, mas pelo escarlate petista, sobre a redentora “florestania”. O primeiro me disse: “Floresta o quê?” O segundo: “Não sei o que é isso não moço!” O outro me responde com uma outra pergunta, “isso se come?” Enquanto o último fica com o olhar atônito, sem me dá uma resposta, mas seu silêncio foi muito mais informativo. Fiquei perplexo, pois pensava que este projeto messiânico tinha logrado êxito. Mas como pode? Toda ação do governo era centrada nesta proposta inovadora. Até então, achava piamente que os povos tradicionais da floresta estavam vivendo no gozo paradisíaco.
Começei a questionar se o neologismo “florestania” realmente foi adotado com aquela ideologia politica avassaladora. Penso, agora, que não, acho até que sua derivação é equivocada, sendo, na verdade, a soma das palavras floresta + mania. Que pode ser traduzido como um vicio excessivo de propagar sobre a floresta, ou se talvez, entrarmos na definição psicopatologista pode ser a expressão de um estado mental eufórico e de otimismo sem base. Estes dois significados são apenas alguns dos léxicos sobre a palavra mania. Ora se a politica da “florestania” não alcançou os povos da floresta, qual é o motivo para tanta excitação? Será modismo? Que aliás se for, pegou geral, pois é moda principalmente feminina andar com pulseiras e cordões atersanais de sementes, onde, inclusive, é visto sendo usado por uma parlamentar nossa, no Congresso Nacional. Demonstrando um genuíno fascismo verde.

O fato é que os povos tradicionais da floresta se tornaram objeto de emancipação politica de um grupo, que não atendeu aos anseios daqueles, que continuam vivendo no inferno quase dantiano (mas que, neste caso, não tem nada de divina comédia!). Não quero imprimir aqui a visão de Euclides da Cunha. Longe deste estigma, uma vez, que o sofrimento deles não é de ordem natural, mas sim da exploração, da expropriação causada por uma oligarquia econômica que sempre ditou as regras nesta região. Já não bastava uma história marcada por luta para constituir sua identidade, agora o governo desapropria e desnatura a luta deste povo, ou seja, desvirtua a imagem conquistada ao longo do tempo para atender a interesses de poucos.
Para olhar o fracasso e a máscara caída da “florestania” é muito fácil, basta observar os bolsões de miseráveis que se formam na periferia da capital acreana. Em especial, cito o famoso e tão falado nos jornais policiais da televisão local, o “Caladinho” que é uma área que apresenta problemas de muitas naturezas, desde de infraestrutura, condições de moradia, e as constantes noticias de violência. E o interessante, que tem este nome em razão da rápida e inesperada ocupação realizada pela comunidade, isto é, a prova irrefutável do grande fluxo de migração campo-cidade, onde o homem do campo está em busca de melhoria de vida, está deixando sua vida rural para procurar na cidade as “migalhas que caem da mesa”. Pois o modelo de “florestania” concebida e propagada pelo “Governo da Floresta” é a promessa, ainda, de um mundo que está por vir.

Fui olhar o preâmbulo da sagrada cartilha da “florestania”, foi aí que me deparei com o engodo deste projeto laboratorial, pensada por tecnocratas de gravata, que pouco se importam com as realidades do homem amazônico e suas devidas particularidades, nem conhecem o escaldante verão acreano, pois vivem em escritórios com ar climatizado. Tal projeto foi, assim, empacotado e enviado para os povos tradicionais com um simulacro de incertezas, que ao ser aberto parecia mais uma “caixa de Pandora”, ainda mais perversa, pois esta não trouxe nem ao menos a esperança, diante de tantos males espalhados ( ainda bem, que a esperança desta gente não depende desta “caixa”). Por outro lado, na contramão desta esteira, este projeto era o acesso à “Terra Prometida” para alguns poucos. Parece ser ambíguo a comparação, quando se fala de “decepção” e “satisfação” tendo ambas o mesmo ponto de origem, mas isto demonstra que a exploração da miséria de muitos é resultado da riqueza de poucos. O que para muitos continua ser a permanência no carma negativo politico, para uns é o deleite eterno de uma vida próspera.
Ainda de maneira subrepticia, quase imperceptível, utilizando o método da Sequência de Letras Equidistante na cartilha sagrada da “florestania” ( temos que utilizar todos os recursos disponíveis para decifrar este grande enigma petista!), percebe-se que toda esta excitação decorre em torno da mercantilização da Amazônia e que os principais favorecidos ainda é a velha oligaquia da madeira e da pecuária.
Como comecei este texto falando de neologismo, peço licença para que eu possa criar um também. Acho que, talvez, não seja bem uma nova palavra, pois acredito que não será difundida e falada por todos, parece mais um nome cormecial, aliás ficará mais ajustado a toda este cinismo encenado e apresentado por atores que apresentam a essência da peça para um pequeno grupo, que paga para assistir nos bastidores. Diante, de tudo aqui mencionado, acredito que a palavra ideal seria, então “Floresta&Cia”. Esta sim encarna a realidade atual acreana, pois a floresta foi arrendada para uma sociedade de investidores comerciais. Neste caso, o que se tem não é uma palavra sagrada, mas antes de tudo uma relação jurídica contratual. Onde em um dos pólos da relação, tem uma sociedade corporativa, que trata de bem público como privado fosse, os grandes madereiros e pecuáristas deteem o espólio da produção interna e são os grandes empreededores da “Floresta&Cia”.

Pensando bem, não discordo totalmente do Toinho Alves, acho que há mesmo uma relação tênue entre Plácido de Castro e Jorge Viana, pois o primeiro veio para demarcar as terras acreanas, e o segundo apareceu, cem anos depois, para vender, hipotecar e arrendar as mesmas terras, que coincidência…

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