terça-feira, 13 de abril de 2010

Determinação leva acreano à USP



Por Evaldo Pereira Ribeiro

Há vinte anos que um acreano não é aprovado para a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP), também conhecida como Faculdade de Direito do Largo de São Francisco.


Este jejum foi quebrado por Kemil Jarude, 19, aprovado no ano passado em 56º lugar, demonstrando que determinação e persistência são dois ingredientes fundamentais para quem quer alcançar um sonho. Ex-aluno bolsista do Colégio Meta, Kemil Jarude visitou os diretores Itamar Zanin e Evaristo De Luca na semana passada, quando esteve em Rio Branco para passar o feriado da Semana Santa com os pais Rosemary e Ronnie Jarude. Foi no Colégio Meta que Kemil concedeu esta entrevista ao GABARITO, para falar do seu sonho e de como conseguiu realizá-lo.





Leia a seguir, trechos da entrevista.

GABARITO - Por que o sonho de fazer Direito na Faculdade do Largo de São Francisco?


Kemil Jarude - É um sonho de muita gente de São Paulo. A sociedade paulistana tem muito respeito pela faculdade pelo fato de ter sido a primeira do País, juntamente com a de Olinda, criada por Dom Pedro I. A Faculdade de Direito da USP é a melhor faculdade da América Latina, em pesquisa, extensão, e em oportunidades de intercâmbio. Todos estes elementos se reúnem nessa faculdade e fazem com que as pessoas tenham muito respeito e vontade de realizar o curso de Direito naquela instituição.

E como você decidiu que queria fazer o curso em São Paulo?

Eu, na minha humildade de bolsista do Colégio Meta, pensei que já tinha conseguido tanta coisa, por que eu não podia tentar mais? Por que vou me limitar a estudar no Acre se posso buscar sonhos maiores? Dar um destaque ao meu Estado, porque quem é de fora não enxerga o grande Estado que é o Acre, já que é isolado, mas com grande potencial de crescimento. Então eu pensei nessa responsabilidade de mostrar um pouco do que é o Acre em outro Estado.

Como foi enfrentar o Vestibular da USP?

Chegando a São Paulo passei dificuldades, como não ter sido aprovado logo de primeira para a Faculdade do Largo de São Francisco. Fui aprovado em 2008 para o curso em Ribeirão Preto, que tem o mesmo diploma, o mesmo carimbo, mas não é o Largo de São Francisco. Quem estuda na faculdade não diz que faz Direito, diz que faz Largo de São Francisco, pela história que a faculdade tem. O sonho de estudar no Largo São Francisco é esse: estudar na maior faculdade de Direito da América Latina.

Em que o Colégio Meta contribuiu para que um jovem da sua idade tivesse essa visão de buscar um sonho?

O Colégio Meta contribuiu na forma básica, essencial, que foi a minha formação no Ensino Médio. Aqui encontrei a base do conhecimento. Tive o apoio dos professores e dos funcionários. O carinho dessas pessoas que também já foram alunos daqui me incentivaram a ver que existem outros horizontes e me levaram a pensar como chegar lá. Tudo isso vai te moldando, para quando chegar lá, estar preparado. Não basta ter o conhecimento, tem que ter a experiência de vida, ter o apoio. Tudo isso eu encontrei no Colégio Meta.

Como você divide os horários para as várias ocupações: estudos, grupo de estudos e pesquisas?

É comum na cultura acreana ver o estudo como perda de tempo. Isso é ruim, porque as pessoas precisam mudar esse pensamento. Eu me lembro de uma coisa que o Eike Batista falou há um mês: tudo o que ele tem, a 8ª fortuna do mundo, ele deve ao conhecimento. É só uma questão de saber dividir o tempo para fazer o que quer: estudo, pesquisa.

Como você divide seu tempo para os estudos?

Os alunos deviam pensar assim: se tem a tarde inteira livre, poderia dividir três horas para revisar o que foi visto na aula e depois as horas do curso de inglês, ou esporte, sair com os amigos, acessar internet, assistir um filme. Algo que aprendi lá fora e não sabia aqui, é que aula dada é aula estudada. Que a questão é se organizar para não chegar perto da prova e se desesperar. Então a questão é revisar a matéria à tarde, aos poucos, para na hora da prova já ter tudo gravado.

Qual o papel da sua família nesta conquista?

O apoio dos meus pais foi fundamental. Sem eles eu não teria chegado lá. Os pais se preparam para preparar os filhos. Se eu não tivesse pai nem mãe, eu não estaria em São Paulo estudando, porque é impossível correr atrás de um projeto desses sem ter apoio financeiro. É necessário ter os pais nos moldando desde o começo, nos fazendo estudar, porque não estamos sozinhos: tem que cuidar dos irmãos, ajudar a comunidade. Se não fossem eles que nos dão essa consciência da realidade do mundo, ninguém conseguiria ter autonomia. Sem uma pessoa para te mostrar o caminho, para te guiar, mostrar o que é certo e errado. Eles já passaram por isso e têm experiência para mostrar que é possível conseguir os nossos objetivos.

Além das disciplinas do curso, você participa de grupos de estudos?

Participo de um grupo chamado Núcleo de Estudos Internacionais, composto de dois projetos: Política Internacional Contemporânea e Política Externa Brasileira. No projeto Política Externa Brasileira estudamos como o mundo vê o Brasil e como o nosso País responde para o mundo. Faço parte, ainda, de outro projeto, este novo, chamado Câmara de Formação Política Brasileira, onde estudamos a formação da Política Nacional. Neste projeto estudamos como a política se desenvolveu desde o Império, passando pela Política do Café com Leite, até chegar à Ditadura Militar. É possível, nestes estudos compreender a influência desses eventos na formação da nossa política até hoje, com o esquerdismo da América do Sul, no qual o Lula está inserido. Percebemos a disputa plebiscitária entre Dilma Roussef, apoiada pelo Lula e José Serra, apoiado pelo Fernando Henrique. Neste grupo de estudo fazemos todo esse trajeto estudando todas essas nuances para entender a nossa política. E eu, como acreano, tento puxar a discussão para o lado do Norte, para tentar fazer com que as pessoas do Sudeste, da faculdade, possam ter uma noção do nosso Estado, da nossa influência na formação política da região.

Você está envolvido em um projeto que pretende avaliar os professores. Como está este projeto?

é um projeto novo que foi implantado na Politécnica e que se pretende implantar este ano na Faculdade de Direito. É um projeto de avaliação docente. Temos que ter muito tato, porque os professores são renomados e você chegar com a ideia do aluno avaliar um professor desses todos ficam meio receosos.

E qual é o seu sonho daqui para frente, depois de ter ingressado na Faculdade de Direito da USP?

É muito cedo para se falar dos sonhos. É preciso ter humildade agora que consegui um feito tão grande como este. Olha só, há mais de vinte anos um acreano não era aprovado na maior Faculdade de Direito da América Latina. É um peso muito grande para mim. Tenho que levar isso com calma, humildade, porque depois de concluir o curso, eu tenho que ver uma forma de contribuir com o meu Estado. Porque lá eu sou o acreano. Minha família é acreana, minha bisavó era índia, nascida em Manacapuru, no Amazonas. Minha mãe é nordestina, meu pai de família libanesa. Eu tenho que preservar e saber lidar com essa cultura lá. Tenho que mostrar para os demais colegas que somos um povo forte, preparado. Nós não somos melhores que eles e nem eles são melhores que a gente. São culturas diferentes. Eu quero mostrar como é o nosso Estado para os demais colegas e depois, contribuir para o Acre ser conhecido fora, como fez o jornalista Armando Nogueira, e como está fazendo o senador Tião Viana.

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